O ciúme é o tempero do amor?

O ciúme é o tempero do amor?

Resolvi escrever sobre ciúme porque esse tema me gera uma série de inquietações. Minha intenção aqui é mudar o mundo fazer algumas problematizações a respeito dessa emoção e tentar ajudá-los a entendê-la com um olhar crítico!

Ciúme é motivo para casais brigarem, para relacionamentos terminarem e para eu ter clientes no consultório. Ciúme também é, nos casos mais extremos, motivo de violência doméstica e homicídio. Será que essa emoção tem algum aspecto justificável e é desejada em alguns contextos? Pode trazer algum benefício? Fiquem com essas perguntas, por enquanto!

 

Mas o que é ciúme?

O Dicionário Aurélio Online traz como significado do termo ciúme:

s.m. Emulação, inveja; zelo de amor. / Pesar, despeito por ver alguém possuir um bem que se desejaria ter: o ciúme o atormenta. / Receio de que a pessoa amada se apegue a outrem.

Vamos dar enfoque à terceira parte da definição – “receio de que a pessoa amada se apegue a outrem” – para dar seguimento à nossa conversa de hoje, que será embasada pela Psicologia Evolutiva, pela Análise do Comportamento e pelas minhas opiniões pessoais.

 

O que dizem a Psicologia Evolutiva e a Análise do Comportamento

A Psicologia Evolutiva afirma que o ciúme é um fenômeno universal. Isto é, sentir ciúme não é algo exclusivo de uma ou outra cultura, mas sim, é uma emoção filogeneticamente determinada. Ela é a reação frente à possibilidade de perda de um relacionamento. Basicamente, o ciúme ser uma emoção filogeneticamente determinada significa que é uma emoção desenvolvida e selecionada através da evolução da nossa espécie, tendo como intuito fundamental se constituir como uma resposta adaptativa. A função era proteger os nossos ancestrais de traições dos parceiros, com o objetivo maior de solucionar o problema da sobrevivência ou reprodução. Assim, os psicólogos evolucionistas interpretam que o ciúme era útil:

  • Para as mulheres: afastamento da possibilidade de uma “rival” retirar a segurança que ela (“esposa”) e os filhos tinham por parte do parceiro/pai, que provê para eles facilidades materiais e segurança emocional;
  • Para os homens: impedia que eles criassem descendentes que não fossem seus, garantindo a sobrevivência de sua descendência.

Eu particularmente consigo perceber a lógica desse pensamento e até tendo a “comprar” essa ideia com o entendimento que seria uma espécie de “gênese do ciúme”. No entanto, do ponto de vista de analista do comportamento, penso que essa emoção não se mantém hoje única e exclusivamente por ser filogeneticamente determinada, até porque o pensamento heteronormativo acima (relação unicamente entre homem e mulher) não se sustenta, já que as relações amorosas são plurais. Penso que um homo sapiens sapiens é ciumento se:

  1. Isso fizer sentido dentro da história de vida (por exemplo, aprendeu que precisa “cuidar” do(a) parceiro(a) para garantir a fidelidade, e repetidas vezes esse “cuidado” foi reforçado). Lembrando que a palavra cuidado está entre aspas pois o ciúme pode ser um leve incômodo como também pode chegar a níveis extremamente patológicos e perigosos para os indivíduos envolvidos na relação;
  2. A cultura em que essa pessoa está inserida valorizar manifestações de ciúme (“o ciúme é o tempero do amor”, “demonstrar ciúme é dizer que valoriza a relação”, e etc.).

 

E como funciona esse mecanismo de ciúme?

Baseado em uma ameaça real ou imaginária à manutenção do relacionamento, o(a) parceiro(a) vai sentir ciúme (medo da perda) e vai se comportar de formas a tentar garantir que a relação continue: vai ligar repetidas vezes, monitorar o comportamento da outra pessoa, chorar, brigar, proibir de fazer uma série de coisas, vai fazer inúmeras perguntas, etc. A intenção do(a) ciumento(a) é:

  1. Amenizar ou eliminar a condição aversiva, isto é, a condição que o preocupou e o fez sentir-se ameaçado e
  2. Produzir benefícios, também conhecidos como reforços positivos (exemplo: “que bonitinho você com ciúme, não se preocupe, você é o amor da minha vida”; abraços, beijos, carinho – ou seja, reafirmações do amor = reforços positivos)

Voltando ao que falei lá em cima, se ciúme é mesmo uma emoção filogeneticamente determinada (embora mantida também pela história do indivíduo e pela influência da cultura), como poderemos estabelecer a diferença entre o ciúme normal e o patológico?

 

Ciúme normal X Ciúme patológico

Bom, como toda emoção, ciúme também tem seu continuum que vai de um extremo ao outro, do patológico ao inexistente. Imagine uma linha com suas duas pontas. Em uma delas está o indivíduo absolutamente NADA ciumento e, do outro lado, aquele ser que matou a namorada e depois atirou em si próprio. Extremos opostos, sim?

Essa linha nos ajuda a pensar. Considerando o crime passional como o extremo do patológico de um lado e o ciúme inexistente do outro, temos aí um continuum que nos mostra nuances da emoção ciúme. O ciúme normal estaria amparado por evidências de ameaças reais à relação, enquanto o ciúme patológico se basearia em suposições e busca desenfreada de evidências, podendo estar presentes até mesmo delírios. O sentimento de estar ameaçado que o ciumento experienciaria nesse caso tenderia a persistir mesmo na ausência das ameaças reais. Vale lembrar que não ocupamos um lugar fixo nessa linha, fazemos uma dança por ali, a depender de como somos, da relação amorosa que estamos vivendo e do contexto completo da situação. A tendência não é passearmos de um extremo a outro, mas sim, manter um padrão, embora ele não seja completamente rígido.

 

O que fazer se namoro uma pessoa muito ciumenta?

Se você namora uma pessoa cujo ciúme está extrapolando os limites considerados saudáveis, não se desespere e, principalmente, não entre na onda. Existem recursos para melhorar ou acabar com a relação. Mesmo que pareça clichê, eu indico uma boa e longa conversa, em uma hora que ambos estejam calmos. Lembre-se: aponte erros que podem ser consertados, em vez de chamar a pessoa de errada, ok? Outra coisa que é fundamental é avaliar se algo do que você faz realmente dá motivos à pessoa para sentir ciúme (mesmo que os sentimentos dela sejam exagerados). Deste modo, também é fundamental fazer um exercício de empatia. Se a situação realmente está difícil e vocês não estão conseguindo se ajustar, procure um(a) terapeuta de casal ou individual. Mas aqui dou um aviso: o(a) terapeuta não traz seu amor de volta em 3 dias! Não será necessariamente seu aliado para reconstituir a relação, porque o trabalho dele(a) na verdade vai ser direcionado a encontrar a solução mais adequada para a demanda de vocês, seja a reconstrução, seja a desconstrução. Se for o término, o(a) profissional vai auxiliá-los a finalizar a relação do modo mais tranquilo possível.

Já se você é a pessoa ciumenta da relação, procure ajuda. Controlar o corpo, a mente e a alma de alguém é algo muito pesado para a pessoa controlada e também para você. Procure ajuda para melhorar a relação ou para encerrá-la bem, mas, principalmente, tenha foco em não repetir esse padrão nem com a mesma pessoa nem com uma futura. Agir de forma ciumenta é uma tentativa de evitar ameaças que sai pela culatra, já que o ciúme muito mal-administrado tem efeitos negativos sobre você (imagino que dê trabalho tentar controlar alguém), sobre o indivíduo que sofre essa pressão e obviamente, ao relacionamento. Não há uma parceria em uma relação permeada por ciúmes demais, há uma relação opressora.

 

Um recado especial para mulheres

Vivemos em uma sociedade em que somos vistas como “propriedades” masculinas e em que muita gente acredita que estamos nesse mundo para servir e atender a todas as vontades dos homens. Por isso (e mais um monte de outros motivos que não vou esgotar aqui), o ciúme masculino é visto com mais condescendência e o ciúme feminino é visto como “histeria” (na linguagem popular) ou “loucura”. Veja bem, não existe nenhuma, NENHUMA justificativa para alguém te agredir, te ameaçar, te chantagear, te coibir e te fazer sentir medo. ISSO NÃO É AMOR! Procure ajuda de amigos, familiares, terapeutas, ligue 180 e se informe! Quantos mais informadas e unidas estivermos, mais podemos trabalhar contra a violência de gênero, que muitas vezes aparece “camuflada” como ciúme!

 

Ciúme pode trazer algum benefício?

Voltando às perguntas que surgiram lá no início sobre a possibilidade de o ciúme ser justificável, desejado em algumas situações e ter algum efeito benéfico, vamos às respostas. O ciúme é justificável, até porque é uma emoção que ao que parece, teve papel na evolução da espécie humana. Realmente é um meio que as pessoas utilizam para expressar receio de perder um relacionamento valorizado e de tentar controlar algumas situações para manter essa relação. Desejado? Resposta positiva também. Em algumas situações o ciúme é desejado dentro da relação, justamente por trazer uma demonstração de valor do que se tem ali. Por fim, pode trazer benefício? Sim. Naquele continuum que coloquei para vocês ali em cima, existe o “ciúme que responde a ameaças reais”. Ou seja, é um meio regulatório de ameaças. Além disso, penso que o ciúme é benéfico para ajudar a repensar o relacionamento, ser aquele momento de aparar as arestas para aumentar a sintonia entre as pessoas ou desfazer relacionamentos que não estão saudáveis.

No entanto, o ciúme não é necessário ao sucesso das relações. Assim, o ciúme não é o tempero do amor. Dizendo novamente o meu objetivo com a matéria de hoje, gostaria que vocês pensassem a respeito do ciúme com um olhar crítico. Então, pense em você e no seu relacionamento e responda:

 

  • Estou em uma relação ameaçadora?
  • Estou correndo algum risco?
  • Preciso procurar ajuda?
  • Frequentemente me sinto controlado(a)?
  • Sinto medo?
  • Estou incomodado(a) em meu relacionamento?
  • Estou sendo muito ciumento(a)?
  • Estou dando motivos para a outra pessoa sentir ciúme?
  • Estou reforçando comportamentos ciumentos do meu parceiro(a)?
  • Meus comportamentos ciumentos garantem o que eu quero?
  • Há um jeito melhor e mais saudável de me relacionar?
  • Está na hora de buscar terapia individual ou de casal?
  • Disponho-me a mudar o que é necessário mudar, pelo bem da relação?
  • Eu confio na minha relação? E na pessoa com quem me relaciono?
  • Existem ameaças reais ao meu relacionamento?

 

Essas são apenas algumas questões que você pode se fazer para tentar regular seu relacionamento ou compreender que está na hora de sair dele. Ressalto a autocrítica nesse momento. Reflita bastante se você está conseguindo criar uma parceria com a pessoa que você gosta. Se você precisa controlar tanto a outra pessoa, o amor que vocês têm é tão genuíno assim ou você só está morrendo de medo de ficar só?

Os ditados populares dizem que a gente procura nossa metade da laranja ou a tampa da panela. Uma vez eu vi uma comunidade no Orkut que se chamava algo assim “Achei minha metade da laranja” e a descrição era “E agora, o que eu faço? Espremo?”. Sou da forte opinião que um relacionamento precisa de duas pessoas inteiras. Esse papo de “achei minha metade” ou “agora sou completo” leva a muito sofrimento. Gera dependência. Seja uma pessoa completa e depois procure com quem você compartilhará sua vida e sejam muito felizes!

 

Nota: Esse texto trata de relações entre duas pessoas. Não falei sobre poliamor, porque iria pedir mais espaço. Aproveito para convidar você, leitora, a escrever sobre poliamor e encaminhar seu texto e uma bio sua para contato@deborapsicologa.com.br. Iremos avaliar e publicar o texto mais bacana! : )

Indicações de leitura:

Contribuições da Psicologia Evolutiva e da Análise do Comportamento Acerca do Ciúme

Ciúmes em uma visão Analítico Comportamental

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