Transformação social pode começar pelos brinquedos

Transformação social pode começar pelos brinquedos

Quando vi essa diferenciação no Kinder Ovo entre meninas e meninos, fiquei chocada. A sensação foi a de que eu fiz uma viagem no tempo forçada, indesejada, rumo à década de 1950. É como se eu tivesse entrado, contra minha vontade, na Retro-Machine da qual Aline Valek falou (aqui). 

Essa dicotomia entre o que é para meninas e o que é para meninos me incomoda muito. Os efeitos de uma sociedade machista fazem com que diariamente mulheres sejam estupradas e assassinadas. Nós geralmente ganhamos menos do que os homens para exercer a mesma função, ocupamos uma porcentagem bem menor de cargos de alta gerência e direção, temos jornada dupla (até tripla!), somos colocadas como seres subservientes, desvalorizadas pela nossa capacidade de pensar e valorizadas pelo corpo (isso se o corpo atinge o ideal de beleza). Ou melhor, temos o corpo valorizado, não a nossa pessoa. Apenas para efeito de contextualização, veja abaixo quadro da Fundação Perseu Abramo (2001) [referência completa ao final da matéria] sobre algumas formas de violência contra a mulher no Brasil (esses dados são bastante difíceis de serem coletados, já que muitas mulheres não fazem denúncias porque têm medo, moram com o agressor, não sabem o que fazer da vida, temem pelos filhos, etc.):

 

fundação perseu abramo

 

Sobre a questão do corpo, indico esse vídeo que mostra representações de gênero na publicidade. A troca de papeis realizada quando homens são retratados da mesma forma como o são as mulheres mostra o quanto a publicidade tem sustentado de forma risível, em alguns casos, e de fato perigosa, em outros, essas dicotomias de gênero. Ainda dentro desse viés de corpo e trazendo um pouco mais do tema intelecto, um artigo que acho que todos deveriam ler é Como conversar com meninas, que ficou famoso na internet há uns anos. A autora incentiva um modo diferente do habitual para conversar com garotinhas, ressaltando que normalmente meninas, moças e mulheres não são muito inquiridas sobre o que se passa em suas mentes.

Opa, estou divagando! Mas é porque esse “macro assunto” de gênero dá muito pano pra manga. Existe coisa demais para criticar e mudar. Quando escolhi falar disso tive que reconhecer que não daria para abraçar o mundo e eu precisaria escolher uma parte do tema, e mesmo assim, essa parte não ia conter tudo que eu gostaria de verbalizar. Então, vamos ao recorte, que é o que tem pra hoje!

Na gênese dessa sociedade machista e feia em que nós vivemos estão os brinquedos. Sim, os brinquedos, você leu certo. Uma vez que você divide, de um lado, os brinquedos de cor rosa (cozinhas, lavanderias, salões de beleza, princesas, bonecas – diga-se de passagem, bonecas brancas) para meninas, e de outro, os brinquedos de cor azul (armas, espadas, carros e bolas), você está criando um universo de gênero dicotomizado, porque pressupõe uma diferenciação entre o que é para um gênero e o que é para o outro. Às meninas, é ensinada a maternagem desde cedo e o senso de cuidado com o espaço doméstico, além da busca de ficar bonita e ser uma rainha do lar para o homem por meio das brincadeiras de cuidar de bonecas, cuidar de uma casinha e brincar de se maquiar. Aos meninos, é ensinado ser forte e às vezes até mesmo agressivo, brigar pelo próprio espaço e defendê-lo, dadas as brincadeiras de luta com espadas e armas. Quando não é isso, eles brincam de carrinho ou de serem mecânicos. Os adultos tentam mostrar para os meninos que eles podem – e devem – dominar o mundo. Nas palavras de Leonardo Sakamoto (texto na íntegra aqui):

A indústria de brinquedos, com raras exceções, trabalha com essa dualidade ‘meninas precisam aprender a cuidar da casa e ficar bonitas para os meninos’ e ‘meninos precisam aprender a governar o mundo’. Quem quer romper com isso encara certa dificuldade para encontrar produtos.

 

brinquedo de menina

 

Isso infelizmente é verdade. Faça um exercício: pense nos últimos brinquedos ou lembrancinhas que deu. Você foi visitar um recém-nascido menino e deu uma roupinha azul? O quarto do seu bebê, que é menina, é rosa? Você acha que o mais delicado a fazer quando não se sabe o sexo da criança é dar algo amarelo? Se você tem um sobrinho, você daria uma boneca a ele? E um carrinho para sua sobrinha, você compraria? Tente pensar em uma cozinha de brinquedo que não tenha uma menina na estampa da caixa. Ou um autopista que tenha uma menina. Difícil, né? E depois, quando as crianças crescem, as divisões continuam. Pense em uma propaganda de produto de limpeza que não tenha uma mulher feliz. E em uma propaganda de carro que não tenha um homem feliz. Eu poderia ficar horas, dias, dando exemplos práticos de coisas de menina/menino e coisas de mulher/homem, desde os brinquedos, passando pelos produtos de limpeza, carros, estética, a perder de vista em termos de temas. Mas acho que por enquanto já deu para entender meu ponto, né?

 

brinquedo de menino

 

O que estou querendo dizer é que desde pequenos, nós (mulheres e homens) somos ensinados que cabemos dentro de um papel social de gênero pré-determinado. E que a sociedade funciona bem se funcionar assim. Mas isso não é verdade! É uma convenção que vem de práticas sociais mais antigas e que ainda não mudaram o suficiente para que convivamos como iguais, como detentores dos mesmos direitos (no papel, homens e mulheres são iguais perante a lei. Mas na prática…). Eu contei no início desse texto alguns dos problemas que esse tipo de sociedade gera. Isso tudo é péssimo para as mulheres, que sofrem os maiores efeitos (volte ao segundo parágrafo se você já esqueceu), mas é ruim para os homens também. Não deve ser fácil se sentir na obrigação de gerenciar o “mundo”, é um peso nas costas. O compromisso tácito de ser provedor, o estresse que isso deve gerar… Eu fico imaginando como deve ser sofrer por qualquer motivo que seja e não sentir que pode chorar e/ou desabafar com alguém (sendo um homem), porque é coisa de “mulherzinha” e denota fraqueza.

Poderíamos começar a construir um mundo melhor parando com essa bobagem de divisão dos brinquedos. Meninos deveriam sim brincar com boneca e casinha também, entre outros brinquedos, como bem colocou Sakamoto na matéria acima. Meninas deveriam ser estimuladas a brincar com essas e outras coisas. Porque as responsabilidades, quando virarem adultos, precisam ser divididas entre as pessoas envolvidas no contexto dessas responsabilidades, e não divididas por gênero. Se a casa está suja, os moradores dividem as tarefas de limpeza. Se há um bebê para ser cuidado, os pais cuidarão. Ambos irão prover o funcionamento da casa e da família em parcelas de responsabilidades que serão acordadas conscientemente e não impostas por uma determinação social de gênero.

Fazer essa mudança de hábitos na hora de presentear uma criança com um brinquedo que não seja pré-determinado em termos de gênero é muito difícil. Quando um pai ou uma mãe ou qualquer pessoa decide comprar um brinquedo, há vários fatores envolvidos e eu não vou tentar esgotá-los agora. Nesse momento, quero ressaltar que o que provavelmente influencia mais diretamente na escolha do presente seja o medo do julgamento dos outros (“o que vão pensar se meu filho brincar de boneca?”; “o que vão pensar se minha filha ganhar um boneco do Homem-Aranha?”). Porque, por mais que se queira romper com o status quo, você ainda faz parte dessa sociedade e pode sentir receio do julgamento dela. Outro ponto que penso ser importante destacar é que quando questionadas, muitas pessoas dizem que dão para as crianças o que elas querem ganhar. De fato, em geral meninos pedem carrinhos e meninas pedem bonecas. Mas a crítica é: essa criança nasceu querendo carrinho ou boneca? Ou como ela também faz parte dessa mesma sociedade, ela aprendeu a pedir essas coisas específicas? Antes mesmo de a criança aprender a falar, o desejo dela já começa a ser apropriado pela mídia!

Ao escolher um presente para uma criança, você pensa no que os pais vão pensar de você. Ao escolher algo para o seu filho, você pensa no que a sociedade vai pensar de você. Essa decisão de romper com esse costume como eu estou propondo não é nada fácil. No entanto, pense nas recompensas em nível macrossocial daqui um tempo. Lembram daquele texto que eu escrevi sobre bem da cultura? É isso. É o motivo pelo qual eu estou instigando vocês a repensarem essas práticas. Vale a pena enfrentar os padrões sociais com essa atitude, para apostar num bem futuro infinitamente maior! É tentador demais! Uma dica: se você não está preparado ainda para dar uma boneca para um menino ou um autopista para uma menina, pelo menos não dê algo que reforce a masculinidade hegemônica e a subserviência feminina, ou seja, os estereótipos de gênero.

Espero que eu tenha conseguido incentivar a reflexão de alguns pais e pessoas próximas a crianças, sejam educadores, amigos ou parentes. Pode até parecer bobagem, mas não é: os brinquedos que nós damos estão carregados de significados sociais simbólicos. Quais valores queremos e devemos promover? Pense na sua responsabilidade de criar um mundo melhor para essa criança que você pretende presentear com um brinquedo. E um mundo melhor necessariamente significa uma sociedade menos opressiva e violenta com as mulheres. No início, falei em viagem no tempo. Mas na verdade, o meu receio é de que infelizmente aqueles tempos em que mulheres eram desvalorizadas e oprimidas não passaram. Cabe a nós pisar no acelerador da máquina do tempo para tirar de vez esses resquícios de 1950.

 

Referência: Fundação Perseu Abramo (2001). A mulher brasileira nos espaços público e privado. Pesquisa nacional sobre mulheres, realizada pelo Núcleo de Opinião Pública da Fundação Perseu Abramo, contendo uma amostra de 2.502 entrevistas pessoais e domiciliares, estratificadas em cotas de idade e peso geográfico por natureza e porte do município, segundo dados da Contagem Populacional do IBGE/1996 e do Censo Demográfico de 2000.

Observação: nessa matéria não tive intenção de desconsiderar a existência e legitimidade de famílias formadas por duas mulheres ou dois homens, envolvendo ou não filhos. Falei de uma forma que remete a relacionamento homem-mulher porque quis enfatizar o machismo e a preponderância de um gênero sobre o outro na configuração atual normativa da nossa sociedade.

 

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