“Mas quando será o carnaval do ano que vem?” ou É sempre mais escuro antes do amanhecer

“Mas quando será o carnaval do ano que vem?” ou É sempre mais escuro antes do amanhecer

Não sei sobre você, mas já aconteceu comigo há um tempo. Descobri que as ruas ditam quando será o final do ano. E ele não é um momento preciso, está mais para um processo que parece ter início cada vez mais cedo, vem em bloco. Começa com um pinheirinho ali, uma caixinha tosca de Natal na padaria da esquina, um muro abarrotado com o mesmo cartaz anunciando a festa de Ano-Novo — imperdível, open bar — com cantores que você talvez conheça, talvez não. Não sei sobre você, mas vi que o final do ano estava aí quando um Papai Noel de pelúcia escalava a sacada de um prédio em 29 de novembro. Então vêm os caminhões da Coca, os estudantes dizendo que estão de férias e o telejornalismo local transmitindo as entrevistas-comércio-feliz-com-aumento-das-vendas-se-comparadas-ao-Natal-anterior. É sempre a mesma coisa se pararmos para pensar. Aí os atores estão cantando que é um novo dia, de um novo tempo e essa baboseira toda. É sempre a mesma coisa.

Vou repetir: é sempre a mesma coisa. E que saco isso, não? As redes sociais supurando com animações de um ano malvadão, que te bateu, cuspiu, pediu desculpas de mentira e te bateu mais forte ainda. E todo mundo rindo e dizendo que é isso mesmo, que 2015 foi um aninho desgraçado de ruim. E que 2014 também foi, gol da Alemanha e 2013 foi assim também e por aí vai. Mas a gente não está sempre lá pulando ondinha com a calcinha de tal cor, desejando que o ano vindouro seja diferente, seja bom, seja excepcional? Por que é que chega agosto e escutamos o “nossa, esse ano passou voando e nem fiz nada” de um amigo? Que saco isso. Por quê? Começam os sorteios de amigo oculto e de repente todo mundo quer começar e terminar algo que largou há séculos e nem lembrava. Tudo tem que caber no ano corrente, dia 31 de dezembro é o prazo final. Jesus nasce de novo e a comichão do atraso de vida está insuportável. Quem definiu o deadline? Qual a razão da urgência repentina e por que correr atrás de migalhas de sucesso pessoal num espaço tão curto de tempo? Os shoppings e o trânsito estão um inferno mais graduado. Todo mundo começa a tirar planos e enfeites de Natal das caixas empoeiradas. Um corre-corre desmiolado. Todo ano. É sempre a mesma coisa. Até toparmos com o calendário do ano que vem.

Claro. Há quem já saiba de cada feriado futuro bem antes de dezembro, só estou tentando seguir um raciocínio e entender a repetição, pois toda a urgência da última semana do ano desaparece assim que um calendário novo sai da gráfica e cai em nossas mãos. Os planos e vontades desvanecem como o cheiro de tinta fresca no papelão com o janeiro estampado, porque vem a vontade de saber quando vai ser o carnaval e quantos feriados cairão em uma sexta-feira. Pronto. Começamos o estágio para sermos o tio do pavê, a titia que pergunta sobre os namoradinhos em festas de final de ano. O rolo compressor da realidade está passando e de novo estamos adiando o que realmente importa para depois do carnaval. Não, para depois da Semana Santa. Não, minto. Para depois dos Jogos Olímpicos, aí sim. Não, não. Para depois das eleições. Oh, esse ano passou voando. Quem é aquele no cartaz da festa de Réveillon?

É sempre a mesma coisa, e custa para enxergarmos que a vida não é adiável. Ela passa. O rolo passa, o protocolo do pavê é confortável. Xingar o ano é confortável. A vida passa e não somos eternos. Somos passivos demais com coisas que não devíamos ser. As ruas anunciam que o final de ano começou, o bloco pesado de dezembro está aí novamente, e repetimos o adiamento. Um eterno adiamento, a mania de esperar que num passe de mágica, na virada do champanhe, tudo vai mudar. Se é tão importante marcar o início de um novo ciclo, usar branco e a calcinha da cor exata, seria bom um pouco de rebeldia.

Sejamos rebeldes. Não há nada mais rebelde que fugir do rolo compressor do normal, do repetitivo, do querer um feriado só pra largar mão do cotidiano ruim. Para termos um ano novo é preciso olhar para a centelha que nos move, para o que vale a pena, fazer o esforço para estarmos cercados por coisas que valem a pena. Daí a pergunta importante: o que realmente vale a pena? Bem. Eu seria um grande presunçoso se desse uma receita. Mas posso, e ainda bem que posso, analisar com honestidade o que está posto. Todos podemos, aliás. Sei também que isso pode assustar e que muitas vezes preferimos seguir um fluxo de mesmice segura, de roteiro pronto. Ora, mas se a cada final de ano somos impelidos a realizar coisas de alguma maneira importantes para nós, já temos uma pista do que parece relevante.

Trazer o assunto à tona dá a sensação ruim de saber que estamos equivocados, que podemos ter a solução e não fazemos nada sobre. Quando tive uma conversa parecida com um colega, anos atrás, ele me chamou de pessimista e otimista em diferentes momentos. Disse para ele, parafraseando Suassuna, que pessimistas são um saco e que otimistas são um porre. Legal seria poder dizer que eu era um realista esperançoso. Ainda tento ser, porque não vejo outra maneira razoável para se estar aqui no mundo. Querer ir além de passas na comida, ultrapassar a necessidade de calcinhas que dão dinheiro ou amor. O excepcional exige um conhecimento absurdo de si mesmo e, por mais difícil que seja dançar com o demônio em nossas costas, é ótimo saber que sempre será mais escuro antes de amanhecer. E amanhece todo dia do ano, não só em primeiro de janeiro. Boas festas, e esqueçam o calendário. Viver não cabe ali.

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