Todo mundo tem bagagem

Todo mundo tem bagagem

Texto de minha autoria originalmente postado na Gazeta Míope (18/10/16) na coluna de Comportamento.

 

Eu adoro How I Met Your Mother! Além de ser divertido, conseguimos aprender algumas lições de vida importantes nesse seriado americano. Uma das minhas preferidas é sobre bagagens, tema sobre o qual iremos conversar hoje. Mas antes disso, uma breve descrição para quem não conhece a série: Ted Mosby, protagonista do show, conta para seus dois filhos a história de como conheceu a mãe deles. O relato é permeado pela relação de Ted com quatro amigos. Fique tranquilo que o texto não possui spoilers sobre o enredo!

Em um dos episódios, Ted fala sobre a “teoria da bagagem”, que basicamente é o fato de que todas as pessoas têm histórias e são impactadas pelo o que viveram. Esse impacto dos acontecimentos passados reverbera em como a pessoa vive hoje. Obviamente todo mundo tem bagagem, uma vez que todo mundo tem história. Ninguém escapa!

história de vida

Para facilitar o entendimento de como se forma uma bagagem, vamos analisar uma situação fictícia: uma pessoa que foi traída por um namorado no passado pode agir de forma ciumenta com o namorado atual. O namorado atual pode reforçar os motivos para que a pessoa sinta ciúmes agindo como alguém em quem de fato não se possa confiar. Outro cenário: o namorado atual é uma pessoa fiel ao compromisso que estabeleceu e não trai. Assim, ele não reforça a forma de agir da pessoa ciumenta. No entanto, essa pessoa está respondendo ao passado dela e não ao presente. Não importa como o namorado atual age agora. É como se, na cabeça dela, ela estivesse se relacionando com uma referência ou resquício do namorado antigo.

Tudo que nós vivemos nos torna quem nós somos; torna-se bagagem. Algumas coisas deixam uma influência boa, outras geram as nossas feridas emocionais. Já a forma como nós lidamos com a nossa história determina o peso de cada mala. O que eu acho extremamente importante que você entenda é isso aqui:

Ter bagagem é diferente de entregar as suas malas para outra pessoa carregar.

Não é nada legal chegar na casa de alguém, jogar suas malas no chão e esperar que o outro organize e carregue tudo. A mesma coisa vale para a vida. Isto é, ao entrar na história de alguém, não sufoque a pessoa com os seus problemas. Não os entregue ao outro pensando que ele tem obrigação de resolver o seu passado. E, principalmente, não o responsabilize pelo o que você passou. Cara. Ele nem estava lá quando a m*rda aconteceu! Mas se você quiser que ele esteja ao seu lado agora, seja uma pessoa legal.

Se um dia alguém te abandonou – pai, mãe, namorado, amigo, papagaio, periquito –, não sufoque quem está com você agora exigindo provas de amor e de dedicação constantes. Não seja uma pessoa difícil só para conseguir provar para si mesmo que é capaz de ser amado. Tem um conceito interessante sobre isso que se chama profecia autorrealizadora.

Funciona assim:

  1. Você acredita em alguma coisa sobre si mesmo, por exemplo “eu não sou bom o suficiente para conseguir o que quero”.
  2. Por acreditar nisso, ao participar de um processo seletivo para uma vaga de emprego você vai com baixa autoconfiança e isso afeta o seu desempenho nas etapas do processo. Você não se expressa bem, não defende suas qualificações e não consegue vender uma boa imagem para o recrutador.
  3. Você realmente não consegue a vaga.
  4. Assim, você reforçou a ideia de que você não é bom o suficiente.

Vejamos isso em formato de esquema com outros tipos de pensamento-base para a profecia autorrealizadora:

 ninguém me ama de verdade  só querem o meu dinheiro 

o que eu faço nunca está bom 3-esquema-4

Como você pode perceber, é possível usar essa mesma lógica da profecia com vários assuntos diferentes.  A profecia sempre tem a ver com a bagagem, essas frases são tiradas de dentro das malas que você carrega. Ted fala no episódio:

Everyone’s got some baggage; it’s part of life. But like anything else, it’s easier when someone gives you a hand with it.*

*Tradução livre: Todo mundo tem bagagem; é parte da vida. Mas como qualquer outra coisa, é mais fácil quando alguém te dá uma “mão” com isso.

A dica é: identifique suas malas. Coloque uma etiqueta em cada uma delas. Saiba quais são as feridas emocionais que você carrega. Diminua o peso ao dividir compartilhar com os outros aquilo que você passou, mas sem os responsabilizar pela solução dos seus problemas. A maior lição que Ted nos ensina nesse episódio é que precisamos aprender a levar nossa história em harmonia com as histórias das outras pessoas com quem convivemos. Para tanto, é preciso respeito, compreensão e parceria de todos os envolvidos. Faça a sua parte! 🙂

Referência: caso você queira ver ou rever o episódio que fala sobre bagagens, é o S05E23The Wedding Bride.

 

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